Eu nunca fui excepcional em nada. Nada. Sempre fui boa e mediana em todas as matérias - não tanto em matemática, mas já superei isso. Nunca fui muito boa em nenhum esporte, e embora desenhasse melhor do que todas as minhas amigas, comparada a alguém que desenhava bem, eu era um lixo - e sinto, ainda o sou. Lia que nem uma condenada, verdade. Minha mãe tinha que me puxar pelas orelhas, principalmente por que eu tenho mania de livros velhos - e poeirentos - e de autores desconhecidos. Sim, aquela pessoa que fica futucando a parte intocada da biblioteca! Odiava best sellers e acho que ainda odeio. Enfim, eu tinha amigos, fazia-os muito facilmente, não era extremamente popular, nem a completa deslocada. Mas um dia... eu resolvi escrever. Criava personagens, desenhava, e amostrava para todos que podiam ler. E isso me deixava mais feliz do que qualquer coisa. Um dia, uma mulher me contou a vida dela - não importa quem era, e nem como conheci. Me contou seus medos, sonhos, indecisões, memórias, muitas. E meu coração explodiu de alegria. Eu estava feliz, completa. E escrevi muito, sobre aquilo, e muitas outras coisas.
E eu não percebi.
Então, fazendo um testezinho idiota sobre personalidade, me perguntaram sobre meu sonho. Eu definitivamente nunca pensei nisso. Não sou do tipo apaixonada, nem afixionada em idéias. Não tenho um projeto de vida a longo prazo, por que sei que ela é instável, apesar de sábia. E não, nunca pretendi ser escritora. É demais clichê para minha síndrome de exclusão.
Pensei bem nisso. E a resposta veio tão simples que me surpreendeu. Eu queria gravar vidas. Sim! Já olhou para as pessoas que estão na rua? Já imaginou quantas coisas elas têm nas costas? Quantos mundos fascinantes atrás de pares de olhos?
Todas as pessoas têm algo a oferecer, e se eu pudesse literalmente ter um pouco dessas vidas e pudesse guardar, registrar, amostrar eu seria inteiramente feliz. Me sinto triste quando vejo pessoas criando histórias fantasiosas, personagens tão iguais, palavras tão repetidas, quando há tanta diversidade para se explorar.
Cada pessoa é um novo universo, e cada vida, única. Resta apenas olhar para os lados e enxergar além do que cabeças abaixadas têm para oferecer.
[Rebecca, numa nova crise de reflexão, ás quase dez horas. ]
Não espero que venha a me conhecer com algumas palavras perdidas. Seriam necessárias muitas linhas para descrever meu mundo. O meu universo, não tão complexo, está incrustado de inúmeras coisas que letras e letras não diriam. Memórias, sonhos, suspiros, medos e aflições. Pedacinhos minúsculos de ser. Receio que talvez nunca venham a me conhecer totalmente, pois como células que se renovam, eu também mudo a cada instante. Porém, ainda tenho esperança, que em algum certo olhar, não me encontrem, mas sim eu mesma me ache, enfim.
Rebecca.
[reflexões às 11 horas.]
"Pensando nesse destino magro eu me recordo também de uma verdadeira morte de homem. A morte de um jardineiro, que me dizia: 'Você sabe, ás vezes, trabalhando, com a enxada na mão, eu suava. Minha perna doía com o reumatismo, e eu praguejava contra aquela escravidão. Pois olhe, hoje eu queria estar com a enxada na mão, trabalhando, trabalhando...Trabalhar com a enxada hoje me parece uma coisa tão bonita! A gente se sente tão bem, tão livre quando está trabalhando com a terra! E além disso, quem vai cudar das minhas árvores agora?"
O trecho acima é do livro 'Cidade dos homens'.
Pequena observação sobre minha crise de futura idade, que pareceu estourar em 2009.
R ia fazer dezoito anos. E todos que a cumprimentavam, diziam, “Você está virando adulta.”. R ouviu tanto aquilo, que acreditou. R teve medo. Medo de crescer. Então R teve uma idéia (afinal, são as melhores horas para idéias!). R sentou num banco. Não qualquer banco. Um banco que tivesse lugar pra mais de uma pessoa. E R chamou uma pessoa. Também não qualquer pessoa. R chamou a pequena R, aquela que nem sonhava em virar adulta. E a pequena R veio, e se sentou no lugar vazio. A pequena R estava exatamente do jeito em que havia sido deixada. E a pequena R perguntou por que foi chamada. R disse, “Vou crescer.”, e a pequena R rebateu “Isso é óbvio.”. R então falou, “Eu tenho medo.”. A pequena R sorriu e levantou do banco, “Qual o problema disso?”. R ficou nervosa, “Mas como assim? Eu estou com medo!”. E a pequena R abaixou o tom, “Uma vez eu caí e ralei o joelho. Começou a sangrar! E quando eu vi aquela coisa vermelha escorrendo, eu também fiquei com medo!”, e riu, “Mas depois eu descobri que aquilo era só uma parte de mim.”. R ficou boquiaberta, e a pequena R lhe acenou, “Eu já vou. Mas não se preocupe, eu vou estar por aqui quando precisar!”. E R ficou novamente sozinha. Mas não ficou por muito tempo! Afinal, queria poder voltar ali para que um dia pudesse falar com a grande R!
No fundo, no fundo, ela seria sempre a mesma Rebecca.
